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Fiquei a saber o que significa “estar em forma” nos dias de hoje. Significa correr milhares de quilómetros em cima de um tapete rolante e não sair do mesmo sitio. Significa levantar centenas de vezes um par de pesos ligados a uma roldana sem reparar que os pesos voltam sempre à posição inicial. Significa saltar e pedalar ao ritmo das canções da moda com a mesma devoção atribuída a hinos nacionais ou cânticos religiosos. Significa interpretar termos como “aerobics”,”spinning”, “flexing”, “body building” e outros que na tive tempo de entender. E, naturalmente, saber traduzir o mais importante de todos: “health club”- o “clube da saúde”!
O que estimula aquela gente de pele lúcida, respiração ofegante e testa banhada? O que esperam alcançar com o esforço sistemático a que se obrigam? O que os faz correr e suar? A promessa dum corpo perfeito, da juventude eterna, duma beleza sem idade.
Não estou a querer sugerir que o culto do corpo seja um caracteristica exclusiva da nossa sociedade, dos nossos tempos. As estátuas da Antiguidade provam que os antigos tinham um culto exasperado pela beleza física. E apesar de quinze séculos de fundamentalismo judaico-cristão, esse culto regressou inalterado no Renascentismo. Tambem n’ “os Maias”, nos capítulos da infância de Carlos e do Eusebiosinho, podemos ler como, no século XIX, era importante a questão da formação de um corpoatlético. Provavelmente, a primeira coisa que o ser humano fez, quando descobriu que na precisava de se apoiar sobre quatro patas para estar sobre a face da Terra, não foi aprender a caminhar erecto; a primeira esse nosso antepassado foi admirar a forma do seu corpo lá do alto de onde lhe ficavam os olhos mantedo-se em pé.
Eu defendo a beleza física. Gosto de ver passar raparigas jovens e bonitas, com corpos bem feitos. Também gosto de ver passar rapazes com as mesmas características, porque a beleza pode ser admirada para lá dos confins da sexualidade. Mas também gosto de ver velhos senhores com os cabelos brancos, a coluna vergada e o chapéu a condizer com a gabardina e a gravata, e gosto de ver pescadores cheios de rugas solares, e muçulmanas com o corpo adivinhado a partir dum olhar profundo, e gosto da beleza luminosa que só um sorriso numa cara gorda consegue transmitir. Prefiro a classe e o carisma à perfeição física, perfiro a Amália à Marilyn Monroe e o Humphrey Bogart ao Tom Cruise. Penso que a beleza é um conceito relativo enquanto que um corpo artificial é um mau gosto absoluto.
(...) fiquei a pensar nessa luta inútil contra as imperfeições do corpo, em tudo semelhante as obsessões com o peso, com os dois quilos a mais depois das festas do Natal, o pavor de engordar e a dieta para emagrecer seguida com rigor fanático (...)
Tenho a sorte de automaticamente “ficar em forma ” a fazer o que mais gosto. A fazer surf, eu faço também exercício físico, coisa que não acontece com o fotografo, o pescador, o pianista, o jogador de xadrez, ou do cinéfilo que não “ficam em forma” quando praticam as suas paixões respectivas. E à medida que os anos forem passando, a minha forma há de se ajustar do meu corpo e à minha idade não o contrário como pretendem os frequentadores do “health club”.
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in No principio Estava o Mar , Gonçalo Cadilhe
Mas mudando de assunto ACROSS THE UNIVERSE:
Filme muito muito muito fixe (principalmente se gostarem dos Beatles)
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